Seus únicos prazeres eram a AM, murmurar e fazer cachos no cabelo.
Eu, sobrinho-afilhado preferido, dava-lhe biscoitos de vez em quando, mas com moderação, pra diabetes não atacar.
De tarde, o rádio chiava missas. Deitada, tia Pureza, fazia música com a boca fechada.
Nem cantava. Murmurava.
A voz não saía inteira. Rezava sem saber a letra.
Também tinha Dona Rita, a costureira de Dete. Aparecia lá uma vez por mês, se não me falha a memória. E costurava na máquina de Pureza.
Tac tac tac tac tac tac tac… O rádio chiando, a máquina cantando.
Pureza na cama, torcendo o cabelo.
Dona Rita apertando o pé no pedal da máquina.
Eu no chão, brincando com retalhos.
Às vezes, tinha briga: tia Pureza acusava Dona Rita de não apertar direito o pedal. Dona Rita respondia, linguaruda.
Mas quando o padre falava na rádio que era pecado brigar, as duas desmanchavam o bico e faziam as pazes. Era tudo carinho, misturado com a falta de paciência de quem já tinha vivido muito.
Um dia, adulto, gravei a estática de uma rádio FM. A memória era da AM, mas a FM chiava diferente. Para mim, chiava “melhor”. E foi com esse som que inventei o resto.
Ficou assim: um murmúrio do avesso, como se tia Pureza ainda estivesse por perto.