“Por onde transitam os corpos?” Para responder a esta questão, é preciso fazer outra pergunta: “quais corpos?” O trabalho de Wilame Lima é sobre trânsito. Sobre locais onde corpos racializados, queers, colonizados e latinos podem, ou não podem, transitar. Neste contexto, define-se quem é autorizado a ocupar espaços, ou cruzar as fronteiras sociais e nacionais para explorar outros territórios.
Wilame cresceu em Aracaju - Brasil, uma cidade distante dos grandes centros financeiros e onde a especulação da pobreza criou locais interditos para parte da população, inclusive para si. Sua primeira experiência com a fotografia profissional se deu no jornalismo, onde aprendeu que a imagem deveria ser técnica, documental e neutra. Apesar disso, nunca conseguiu ignorar a contradição da busca pela neutralidade no mesmo jornalismo que politiza, objetifica e desumaniza corpos constantemente, por meio de linhas editoriais de negação de acesso.
Em busca de diversidade de representações, mudou-se para o sul do Brasil, e depois para a Suíça, Áustria, França e Estados Unidos, onde finalmente abandonou o ideal da fotografia neutra e assumiu um estilo onírico e surreal. A partir da naturalização francesa, nasce o entendimento de que também é um corpo racializado, Wilame insere em seu trabalho temas como o racismo, homofobia e xenofobia, porem, ao fazê-lo, trabalha através de uma linguagem poética e sensível.
Para Wilame, a fotografia aparece como instrumento de libertação do olhar em dois sentidos: no de quem vê e no de quem é visto. Mas também funciona como instrumento terapêutico. Seu propósito enquanto artista é compartilhar com os centros as vivências periféricas, onde o acesso lhes é negado. Ao se materializarem nestes espaços por meio da fotografia, autoriza-se, também, a entrada destes corpos e curam-se as feridas do passado.
Com um discurso assumidamente político, Wilame questiona e subverte, mas também se dá o direito de poder abstrair através da poesia sutil da imagem. Cabe lembrar que o próprio ato de abstrair também é uma declaração política, especialmente em face das expectativas impostas aos grupos marginalizados para que contem e recontem suas lutas, numa constante fechitização do sofrimento.
Em uma sociedade que romantiza a exclusão, é importante relembrar que todos deveriam ter o direito de transitar livremente: pelas cidades, pelos países, pela vida e pelas palavras. Para aqueles que ainda não podem fazê-lo, que a fotografia seja um instrumento de democratização dos olhares, de luta e de trânsito.
Sobre o artista:
Wilame Lima é formado em Comunicação Social e Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe, e pós-graduado em Ciência de Dados pela Faculdade de Administração e Informática Paulista. Em sua passagem pelas artes visuais, explorou a ilustração de imagens, a fotografia em filme e a produção de imagens sintéticas com inteligência artificial. Atualmente, se dedica à fotografia digital urbana, de paisagens, autorretrato e ao seu projeto de abertura de uma galeria de arte na cidade de Lisboa.
"Where can people go?" This question prompts another: "Which people?" Wilame Lima's work delves into the concept of transit, exploring the spaces in which racialized, queer and Latinx individuals are permitted or prohibited from navigating. Within this context, societal norms dictate who has the authority to occupy certain spaces or cross social and national boundaries to venture into different territories.
Wilame grew up in Aracaju, Brazil, a city distant from major financial centers, where marginalization created restricted spaces for a portion of the population, including himself. His initial experience in professional photography was in journalism, where he learned that images should embody technical precision, document events faithfully, and maintain neutrality. However, he couldn't overlook the inherent contradiction of pursuing neutrality within the news industry: a field that consistently politicizes, objectifies, and dehumanizes bodies.
In his quest for greater diversity, he relocated to southern Brazil and later to Switzerland, Austria, France, and the United States. During this journey, he finally abandoned the notion of neutral photography and embraced a style characterized by dreamlike and surreal elements. Upon becoming French through naturalization, Wilame recognizes himself as a racialized individual and integrates themes such as racism, homophobia, and xenophobia into his work, yet does so through poetic and sensitive language.
For Wilame, photography is a means to emancipate both the observer and the subject. It also functions as a therapeutic tool, addressing the wounds of the soul. His artistic mission is to convey the experiences of marginalized individuals in spaces where they are denied access. By capturing and portraying these experiences through his camera, he not only legitimizes the presence of these individuals in these spaces but also facilitates their entry.
Through an explicitly political discourse, Wilame challenges and disrupts while also affording himself the privilege of abstraction through the nuanced poetry of imagery. It's crucial to acknowledge that the act of abstraction is inherently political, particularly considering the societal pressure on marginalized groups to narrate their struggles, perpetuating a fetishization of suffering continually.
In a society that romanticizes exclusion, it's imperative to remember that everyone deserves the fundamental right to move freely: within cities, across borders, through life, and within the realm of expression. For those currently unable to exercise this freedom, let photography act as a vehicle for democratizing perspectives, advocating for change, and facilitating transit toward a more inclusive society.
About the artist:
Wilame Lima holds a degree in Social Communication and Journalism from the Federal University of Sergipe and a master's degree in Data Science from the Paulista College of Administration and Informatics. Throughout his artistic journey, he has delved into various mediums, including image illustration, film photography, and the creation of synthetic images using artificial intelligence. He focuses on urban digital photography, landscape photography, self-portraiture, and his endeavor to establish an art gallery in Lisbon.
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